segunda-feira, agosto 14, 2017


                               Ausência



Como se o corpo estivesse sem um pé. Como se faltasse alguma coisa que impedisse as outras de funcionar. Liquidificador sem lâmina e as frutas girando e nada. As sombras do trânsito passando aquele filme na janela. E só. Podiam ir-se minutos, ou horas, e todos escorriam pelo vão da indiferença. Um choque seguido de anestesia. E o corpo estirado, inerte. Baqueado, mas sem dor. Os olhos fechados. Nenhuma gota de sangue, à parte aquele cheiro de queimado subindo pelos ares e invadindo as frestas das cortinas velhas daquelas ruas abandonadas por Deus e pelo Diabo. Olhava os dedos das mãos pra saber a quem pertenciam aquelas linhas tortas. E os afagos de que era capaz. A quem? Pensava lento. Quase não saía ar. Pensar é respirar. Mas pensar lento nem sempre era pensar leve. Ali não era. Ali era denso. No fim deu-se conta de que não importava a quem pertenciam os caminhos, se não pudesse sair dali com o corpo por inteiro. E não podia. Não sairia dali. Era assunto fechado a sete chaves. Esperaria que a terra se abrisse e carinhosamente envolvesse seu corpo esquálido em seu manto frio e fértil, para que nunca mais tivesse que se lembrar dos seus olhos brilhantes. De sua voz embargada. Da sua energia explosiva. Dos seus gestos e palavras, e de toda a dureza que consumia lentamente sua alma. Havia lembranças que furavam o acordo do tempo de levar tudo embora antes que você pudesse morrer de uma tristeza tão exata. Olhava-se e detestava tudo que via. Não queria mais se ver, ao menos até que a campainha tocasse e o carteiro aparecesse e com suas mãos quentes entregasse alguma correspondência fria e mecânica, ou algum de seus amigos tentasse enviar uma mensagem qualquer via aplicativo do enfadonho e solitário universo virtual de redes sociais.Uma mensagem que não se pudesse recusar a responder, talvez. Quanto tempo poderia ficar ali sem levantar suspeitas, até que fosse estranho estar vivendo em uma terra distante onde a língua do seu coração não pudesse ser compreendida por nenhum outro habitante e o limite do mundo estivesse ao alcance da porta? Quanto tempo até mais uma vez ter de carregar além fronteiras aquele emaranhado incompreensível de sentimentos turvos onde se afogava lentamente sua sanidade? 

quinta-feira, dezembro 08, 2011

As pessoas vivem de explicações, na luta por uma auto-redenção que as permita continuar a ser malvadas com o intuito cego de "acertar" escondido no fundo do olho negro dos panos que tapam suas platéias vazias.

Semi-bonecos de corda, controlados por ainda outras cordas, que precedem cordas, e cordas, mais cordas. Sempre cordas, que não terminam e se desenrolam numa grande teia de sistêmica obediência civil.

E os sentimentos, cordas. Empurrando seus bonecos para 1, amor. Corda nata. Corda bamba, corda morta. O tempo destrinchando a corda quando 2 medo. Corda do resgate. Reune a corda do amor para que a unificação seja também contenção. Não se rebelem. Corda 3 grita. O grito se ouve, mas não se vê. Consciência tem nome. É corda.

Antes não houvesse nada. Por que quando é nada, não há nenhuma coisa. E sem coisa, corda zero, corda nenhuma, nada. A gente vai pra frente porque experimenta descobrir a frente que é a trás de todas as outras coisas que não vemos enquanto olhamos para um só lado. Da vida, das cordas, do mundo. Dos bonecos sem cabeça rodando 360º em volta de suas próprias idéias de felicidade. Que aliás, corda 5. E lá vai. Amarrando, costurando, tecendo um universo de enfermidades que levam. Me levam. Pra onde nunca quero ir tão só e sick.

segunda-feira, novembro 21, 2011

Foi com uma inocencia forjada que a vida me deu as informações que eu não quis ver.
A vida parcela as verdades, pra cobrar com juros a dívida de sonho.

Eu sonhei um mundo re-configurado. E agora, eu to pagando meu preço.

Depois que a porta deixa de ser um nada na parede, apenas uma madeira velha, que alguém pôs ali, sem motivo, coincidentemente, quase sem querer, pra se tornar uma possibilidade, uma visão única, diferente dos que passam ser ver. Dos que não ardem por janelas ou portas. Dos cegos urbanos, agarrados em suas verdades de 525 caracteres, daí eu pensei que não houvesse opção além de estar fora dos limites reais.

Estar além, a margem, pela borda. Não entrar nunca. Não participar. Não fazer parte.

Foi um pouco além do transbordamento. Um pouco além da rebeldia de farmácia. Além da música e além da literatura. Esses conformismos não me servem mais. São analgésicos podres. Parte da engrenagem. Mais sistêmicos do que o olho que tudo vê.
Estou ausente.

Agora entendo as escolhas que fiz. Me assusto. Me surpreendo. Mas afinal, me reconheço.

Eu tenho um termo agora. Eles finalmente me arrumaram um. E mais: Foi fácil como lavar as mãos na chuva.

Não há mais mistério. Não há mais sedução. No more joy, babe. No more fun.

domingo, julho 31, 2011

É sempre manhã e sempre "bom dia" pros padeiros que buzinam em minha rua com pão e corpos amornados pelo sol no pequeno bairro de Itaipu de minha também pequena cidade.
Com os olhos ainda amolecidos e úmidos da noite sem sono, percebo o passar dos padeiros e não consigo dizer uma palavra sequer sobre a peregrinação matinal dos homens sempre felizes e sorridentes que enfeitam as manhãs invernais de minha varanda.

E eu só não digo nada porque nunca falo a essa hora, mas se alguma coisa saísse, cara, se eu pudesse dizer qualquer coisa que fosse, seria mais ou menos assim:

"- porra, cara, eu ainda não sei, mas se eu continuar mais uns dias sem saber, quero ser mesmo é como tu"

Aquela altura de minha vida, com 23 anos recém completos, já era fácil identificar burburinhos estigmáticos ao redor das festas familiares a respeito dos rumos e prumos pra minha vida desregrada e incomum. Eles tinham uns nomes esquisitos pro que eu chamava de lapso criativo.

Eu não sei se o que rareou foram os lapsos ou a merda da paciência pra toda essa gente inútil em volta de mim. Só sei que de tanto gastar palavras pra explicar o que não se vê, fui ouvindo mais, calando mesmo. Guardando sorrisos e dispensando furadas.

Errado por errado, certo por certo, eu continuo no maravilhoso equilíbrio entre pequenos surtos e longos surtos.
No meio disso tudo, as vezes, ainda encontro alguns padeiros sorridentes, a quem grunho meia dúzia de palavras incompreensíveis, mas que se fossem compreensíveis, seriam mais ou menos assim:
"filho da puta sorridente, vai vender pão na porra do deserto que o parta, como eu queria ser você, só por esse minuto feliz, entre o flair da manhã e essa sombra distante das oliveiras reluzentes que emolduram o bairro empoeirado da pequena cidade em que vivo, pro diabo com toda essa luz! E bom dia pra você também, seu padeiro"
Amém.
E aí o dia chega...Você ri, desdenha, duvida, aposta.
Mas chega.
Você acha que é fase, que volta, que passa, como elástico de criança e a música ecoando
- "Um hooomem bateu em minha porta. e eu. aaaabri."
Não, não é elástico. Não passa, não volta. É definitivo e relativo. É agora e aqui. É pra lá dos 8. São 23.
Cole Portman não é mais uma questão de bom gosto.
Paris já parece óbvio demais e todas as pessoas suddenly curtem Janis Joplin.
O jazz da Lapa formiga, entre outros de 23 e por que não até menos? Hoje tem-se o que não se tinha antes.
E você pensa: - "porra, sobrou o quê?"
Alguém me ajuda na resposta por que eu, ó. Já dormi e acordei uns 23 dias com 23 anos e até agora, a resposta flutua soltinha pelo céu nublado de agosto.
Lá vem o mundo dar chão pra quem não tem pés....

quinta-feira, agosto 26, 2010

Hoje remexi o passado.
Isso é coisa que não se faz.
Ele morde e sacode, não gosta do que é.
E pega.
A mordida se alastra, alergia.
Espirro mas não sai.
Fica. E dentro, bem dentro.

Chiquititas e Leonardos Dicaprio. Cheiros e gostos. Paredes pintadas de mim.
Caixas cheias de meias verdades.
Ou talvez o que hoje é seja só uma meia mentira.
Não sei.
Nunca soube.
E que eu não descubra.
Amém.
É engraçado, porque a sensação de solidão vem sempre junto com a vontade de nunca estar só.
Mas...
Ontem descobri que na prática não.
Na prática eu já não sei mais estar acompanhada.

Não é engraçado?!

terça-feira, agosto 03, 2010

E você atua, né? atua porquê? Não consegue? Não consegue segurar a onda dessa sua vidinha? E aí faz isso? Abre as portas e disponibiliza o corpo a diversas outras vidinhas, né? O que é? Tá com medo? De ficar maluca? De se fuder nesse jogo de vidinhas?
Qual foi menina, qual que é a tua?
E pensa que eu não sei?
E esses diversos planos aí? Alternativas de fuga?!
Eu já saquei qual é a tua. Gosta dum mundinho imaginário, né? E se não for assim, pra câmera, pra si, pros outros, tu vai criar mais um? De outro jeito? Feitos de linha e despretenciosos pedaços de papel? Faça me rir mais, menina.
Pensas que não sei. Uma P-I-A-D-I-N-H-A. Isso que você é.
Mas não te esquenta. Desse jogo eu sei.
Gente que nem tu, se não consegue, dá um jeito de conseguir.
Nem que seja na dor, no acidente, no desaviso, no sem querer.
Vai, dá teu jeito, te vira.
Ou você cria, ou te deixam ser, ou vais ficar louca. E dá tudo no mesmo. De qualquer forma, é um mundinho imaginário só pra si....Brinca comigo. Quebro esse tijolo no soco.
Te tiro dessa merda de jogo e te jogo na lama. Pra você se lembrar.
Quem é você? De onde você veio? Sai fora que isso não é pro teu bico!
Bom dia menina.
Você atua, é?
Por favor, por favor. Não faça isso, segure sua onda, se mantenha aqui. Não vá.
Olhe para essas linhas! São linhas, vê? É você quem as escreve. Se recorde do seu nome. Lembre-se. Quem é você? Você pode responder essa pergunta. Sabe que pode.
Não, não. Não ouça. Ninguém fala. Só eu.
Você não quer realmente quebrar tudo ao seu redor...Você jamais faria isso!
Continue a sorrir. Continue a sorrir. Continue a sorrir.
Isso.
Cante um mantra. Siga o ritmo. Continue, continue..Veja, está passando.
E isso que fica por dentro, não se incomode...Tem um canto aí para essas coisas. E não há risco. Há canto suficiente para toda uma vida. E o máximo que pode acontecer, é você ficar de repente um pouquinho mais mecânica, apática, normal. Mas isso é ok. Tudo bem ser assim, viu?
Olha lá! Todos são assim. Não há o que temer...NÃO! NÃO QUEBRE ISSO AÍ!!!!!!
Continue a sorrir...Contin...

segunda-feira, julho 26, 2010

Meu blog se trata muito mais de colocar pra fora o que já não cabe mais na alma do que de estar pensando em quantas pessoas vão ler ou deixar de ler o que se escreve aqui.
Vê, é simplesmente inesperado que haja qualquer tipo de reação. Como a tua. Não há o que esperar, só dizer.
E daí?

obs: Não acredito que alguém seja tão bobo a ponto de escrever para ninguém ler. O que se escreve, é para ser lido, o que não é pra ser lido, fica aqui, guardadinho nas nossas lembranças.
Não se diz o que não se quer que ninguém saiba!

=]
Você gosta das verduras frescas. Eu não como verduras. Eu sei e você sabe, mas no final do dia, quando ponho devagar as mãos sobre a fechadura, com leveza e paciência pois me sobram apenas leveza e paciência após esses cinqüenta anos, você estica o pescoço, já num gesto mecânico, de quem nem pensa em fazer, só faz, pra ver que fez, e me olha.
Me olha pra sorrir. E aí sorri.
Você diz: Estou preparando rúcula.
Eu posso assentir, ainda que, como eu disse. Você sabe e eu sei.
Ou, posso ignorar, pra depois subir lentamente os degraus até aquele espaço pequeno que era tão nosso. Vai depender de como foi o dia. Lá dentro, tudo que sempre foi, do jeito como sempre foi. E não importa que as cores não sejam as mesmas e que você não mais as consiga ver, por que eu já cheguei. E depois de tanto tempo, chegar já é o suficiente.
Nós não temos mais espelhos na casa. Foi assim que combinamos. Eu sou só o que você vê, e você é tudo que eu vejo. Basta isso. Só isso. E eu comeria rúcula pelo resto dos meus dias.



Por onde perdi?
A pergunta me segue, mas já não me recordo o que perdi, se perdi, ou a caminho de quê.
O que é?
Essa coisa que espeta, incomoda, entra fundo na alma, só pra me derramar fora. Mas eu não quero ir. Eu quero mais é ficar. Me deixem com as minhas coisinhas. Em paz. Em desespero. Desde que fique, desde que seja, desde que sou.
Só quero roer esse osso que resta, de tudo que era pra ter sido, agonizar em silêncio. Levantar e sorrir.
Tão criança, gargalhar. Tão, mas tão.
Colo. Isso... pegue, pegue no colo. Shhhh...Shhh... Não importa, é um bebê.
Bebê? Pára, não é isso que é.
Drama. Você diz drama e nada parece mais ser. Me aquieto. Escondo os olhos. Criatura acuada, quando reparo já estou. Arranho a parede. Arranco fora e guardo no armário. Se pensas isso, como posso lhe deixar ver?
E roda roda roda. Néctar escorrendo pelo corpo. Continua rodando. É pra cima que olha. Não há buraco. Só espelho. Mas espelho também é buraco e de repente, podia ser, podia ser. A idéia se acende. Apaga. Desiste. Se esconde no piso. Derrete. Não existe mais, não existe, não existe. Acredita, e porquê acredita, some.
Gosta. Sente o gosto vivo do poder de si que tem.
A rainha de todos eles.
“Uma ode a mim”. Brindo o cigarro.
Dorme e acorda assim.
É sina, maldição, destino.
Eu rio do destino porque a maldição e a sina me parecem tão mais ainda que eu.
E não são, não são.
Só eu, só. Só. Só.
E parar pra no meio do caminho pontuar os pontos. E não quero mais pontos, nem nada.
Os pontos soam tão. Não, nada de pontos. Sacudo os pontos do colo. Quem é que precisa disso afinal? O fim não é o que parece. Nada termina como deve começar. Essas coisas sempre juntas pelo final das outras...
O meio. Me restrinjo ao meio. O meio é a melhor parte. No meio o olho brilha. O meio é como redenção. Ah, sim. Isso sim. E em seguida constatar: Meu Deus. Me roubaram o meio. E pimba, lá se foi a luz. Lá se foi o ar.
Estava ali, onde foi parar? Rodo, rodo, rodo. Já não posso parar. Não há meio que me satisfaça. Respire, respire. O duplo osso da vida é função. Quando se chega, vai-se.
O que é? O que é? Essa coisa que espeta, incomoda, entra fundo na alma, só pra me derramar fora.